terça-feira, 8 de maio de 2007

Google contrata cientistas mineiros


Não é raro esbarrar em alunos vestidos com camiseta do Google, nos corredores do departamento de Ciência da Computação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ali, a ligação com uma das empresas mais poderosas de internet do mundo extrapola o fascínio pela marca. O departamento está se transformando em um respeitado celeiro de profissionais para a companhia americana.


Neste mês, três cientistas mineiros embarcam para a Califórnia, nos Estados Unidos, para fazer uma residência em tecnologia na sede do Google. É a primeira leva de brasileiros que participa do programa. Ao mesmo tempo, dez profissionais entram na fase final de um curso preparado por professores da UFMG sob medida para o Google. No segundo semestre, outros 20 alunos selecionados pelo Google no Brasil inteiro freqüentarão as salas de aula da mesma universidade. São candidatos a uma vaga na empresa americana que estão em Belo Horizonte para tomar lições de máquinas de busca na internet.

Por trás do processo, há um time afinado de especialistas em tecnologias de busca. Trata-se dos engenheiros Ivan Moura Campos, 63, Nívio Ziviani, 60, Alberto Laender, 56, e Berthier Ribeiro-Neto, 47, quatro dos seis ex-sócios da Akwan, empresa nascida dentro da UFMG e vendida em 2005 para o Google por um valor não revelado.

"Na venda, uma das nossas principais metas era contratar um número mínimo de gente para o Google. Não havia máximo. O Larry Page (um dos fundadores) disse que, se encontrássemos 200 engenheiros, podíamos contratar", diz Ziviani, professor desde a década de 70 e empresário a partir dos anos 90. "O grande ativo do Google é gente. E eles estão contratando alucinadamente. Eles nos escolheram porque o grupo de recuperação de informação daqui é um dos melhores do mundo."

Uma pesquisa na internet dá a medida da relevância do quarteto no universo da tecnologia da informação. Há mais referências sobre eles em inglês que em português. Eles participam das principais conferências mundiais sobre o tema,cuja taxa de admissão de trabalhos é da ordem de 10%, ao lado de profissionais das três principais empresas da área (Google, Microsoft e Yahoo).

Outras evidências: Campos foi um dos responsáveis pela implantação da internet no Brasil e Ribeiro-Neto é co-autor de um best-seller na área de recuperação de informação - o livro do mineiro é adotado nas principais universidades de ciência da computação do mundo, inclusive em Stanford, onde nasceu o Google. "Não somos muito bons de marketing. As montanhas de Minas são mais altas aqui. Prova disso é que ficamos nove meses negociando com o Google sem que ninguém soubesse", brinca Laender.


Origem

Campos e Ziviani foram um dos fundadores, na década de 70, do departamento de computação da UFMG. Amigos de infância, o primeiro tirou o segundo de um banco e o levou para a academia. Laender veio na seqüência e montou o laboratório de banco de dados, peça importante do núcleo de busca. Ribeiro-Neto, ex-aluno do departamento, se juntou ao grupo em 1995 após um doutorado na Califórnia. Eles atuavam em áreas diferentes, porém complementares.

Ziviani e Laender são os únicos que ainda permanecem na universidade. Apesar de terem embolsado um bom dinheiro com a venda da Akwan, não pensam em deixá-la tão cedo. Ziviani ensina por hobby. É aposentado como professor e, ao lado de Campos, ganhou sua primeira fortuna ao vender a empresa de busca Miner para o UOL, em 1999. Campos é consultor de empresas na área de tecnologia de informação e Ribeiro-Neto dirige a área de pesquisa e desenvolvimento do Google para a América Latina.

O quarteto de professores não nasceu com vocação empresarial. Ela foi duramente lapidada em cursos de plano de negócios na Fundação Dom Cabral e intermináveis reuniões com investidores e clientes. "Eles não conheciam nada, mas demonstravam capacidade e disposição de interlocução com o capital", diz Marcus Regueira, um dos sócios da Fir Capital, empresa de investimentos que já colocou recursos na Miner, na Akwan e na Metasys, outro negócio que nasceu dentro desse núcleo.

Dos quatro, o mais aberto ao mercado sempre foi Campos. Na década de 80, ele trouxe o primeiro de uma seqüência de projetos em parceria com empresas. As alianças duram até hoje. Em 2006, a receita anual desses trabalhos chegou a R$ 12 milhões. Foi também Campos o responsável por incluir na grade curricular a disciplina de empreendedorismo.

Na marra, eles aprenderam que entre desenvolver tecnologia para a indústria e criar uma empresa há uma incrível distância. "Eles estão na vanguarda tecnológica, mas isso significa pouco para o sucesso do negócio", diz Fernando Dolabela, especialista em empreendedorismo e criador da disciplina para o departamento. "Eles aprenderam rápido e souberam usar muito bem uma rede de relações importantíssima, que incluía o Guilherme Emrich (fundador da Biobrás, vendida para a Novo Nordisk, e sócio da Fir Capital) e o Marcus Regueira."

Agência Estado

Um comentário:

Fer disse...

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