terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Por que vou trabalhar na minha folga?

Voluntariado agrada empresas, mas não adianta forçar a barra

Publicado em 18/12/2007 - 12:30

Do Universia

Antes de pisar num hospital, Joe precisou passar por rigorosos controles de higiene. Não foi um processo simples conseguir transitar pela área pediátrica do Hospital São Paulo. Mas hoje, passadas as etapas mais críticas, Joe é a alegria de muitas crianças que sofrem com tratamentos dolorosos e desgastantes. Ele é parte de um projeto de trabalho voluntário idealizado pelas irmãs Luci Lafusa e Ângela Borges. Joe, cão da raça Golden Retriver, contribuiu para realizar um sonho delas: ajudar crianças.

Embora as duas tenham seus trabalhos - Luci é bibliotecária e Ângela, secretária - elas conseguiram realizar o projeto que tanto queriam com as crianças do Hospital São Paulo, usaram tempo em que poderiam descansar para ajudar os outros. Na ala pediátrica, Joe passa de quarto em quarto e leva, segundo as palavras de Luci "um pouco de alegria para os pequenos assustados com o ambiente de um hospital".

No início do ano de 2006, as irmãs tiraram a idéia de documentários norte-americanos que mostravam a aptidão de algumas raças de cães para esse trabalho. Notaram então, que seu cão tinha comportamento parecido com o daqueles que viam na TV e idealizaram o projeto. No início, houve algumas restrições, segundo Luci. "Precisamos levá-lo ao médico veterinário, dar todas as vacinas e tratar da higiene dele de maneira impecável. Então, o próprio veterinário nos indicou um adestrador, para que Joe ficasse ainda mais dócil do que sempre foi", ela conta.

Para tocar a idéia adiante, contaram com o apoio da Assistente Social da Unifesp (Universidade Federal do Estado de São Paulo), Roseli Monteiro. Depois de conseguir toda a documentação necessária e os cuidados, todos financiados pelas irmãs, Joe obteve a liberação para visitar semanalmente as crianças internadas. Para Roseli, o resultado é altamente positivo. "É nítido que o ambiente muda quando o 'Amicão' entra no hospital. Médicos, enfermeiros, visitantes e claro, as crianças, deixam de lado os problemas que têm para se aproximar do cachorro", explica ela em referência ao nome com o qual o projeto das irmãs foi batizado: "Joe, o amicão e cãopanheiro".

O mercado gosta

Para a consultora de Recursos Humanos do Grupo Foco, empresa especializada em organizar processos seletivos de diversas companhias, Camila Leal Bolvan Diziniz, o exemplo como das irmãs Ângela e Luci é valioso. Segundo Camila, ser voluntário conta muitos pontos a favor de um candidato numa entrevista de emprego. "Pessoas que prestam esse tipo de serviço, geralmente são pró-ativas, trabalham bem em equipe e tendem a ser mais flexíveis", explica ela.

Mas Camila diz que embora as empresas prefiram os candidatos com trabalhos voluntários, é preciso ter cuidado ao contar essas experiências na hora da seleção, há muitos oportunistas. "Muitas pessoas que sabem dessa preferência dos empregadores, dizem que são voluntárias, mas ao serem perguntadas sobre o trabalho, não sabem responder, pois consideram uma visita a um orfanato feita há dois anos, por exemplo, um exemplo de voluntariado", conta Camila.

Outro que usa de maneira diferente o tempo em que podia não fazer nada é o estudante de Teologia da Mackenzie (Universidade Presbiteriana Mackenzie), Thiago Torres. Ele fundou o "Projeto Makanudos". Trata-se de uma iniciativa dele e de dois amigos de sala para ajudar crianças de escolas públicas na Zona Sul da cidade de São Paulo. "Nosso projeto consiste na ajuda anual a uma escola, com palestras, oficinas, peças de teatro, atividades variadas, enfim, fazemos uma complementação daquilo que os alunos aprendem, mas do nosso jeito", explica Torres.

Quando o Projeto Makanudos sela acordo com uma escola, seus integrantes fazem uma reunião com a diretoria e com todo o corpo docente para identificar os principais problemas enfrentados pelos alunos da região. Depois, é feita uma pesquisa com os próprios alunos. "Perguntamos o que eles gostariam de aprender e debater durante o ano, e com esses resultados, realizamos nosso trabalho", explica ele. O projeto que começou com três alunos, hoje conta com aproximadamente 80 pessoas, entre empregados e voluntários. Já atendeu mais de 30 mil crianças e segundo Torres, os temas mais abordados são, pela ordem: sexualidade, família, mercado de trabalho e religião.

Para Camila, do Grupo Foco, voluntariado é algo que está na personalidade das pessoas, por isso, não adianta tentar usá-lo para se dar bem numa entrevista de emprego, pois o entrevistador logo saberá identificar o truque. "Pessoas que realmente fazem um trabalho voluntário podem ser facilmente identificadas numa conversa. Quem é voluntário de verdade gosta de ajudar ao próximo, de dedicar um pouco do seu tempo para ajudar outras pessoas", explica. Mas, se você não tem essas características, Camila diz que não há motivo para se sentir em desvantagem. "O trabalho voluntário pode ser um diferencial, mas dificilmente será preponderante para uma vaga de emprego", garante.

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